segunda-feira, 14 de março de 2011

Aviso a Lua que Menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


       Elisa Lucinda

sexta-feira, 11 de março de 2011

Isola

e' il tuo ritratto sullo sfondo
che s'illumina
ed e' la voce del tuo mondo
che mi libera


      Chiara Civello

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Lado Preferido da Calçada

Como filho do interior, conservo hábitos. O respeito pelos rituais herdados de meu pai, de meu avô, de meu bisavô. Assim como não perco o interesse ao espiar o entardecer e conferir como será o último gole de rio pelo sol alaranjado.

O armário afetivo não dispensa gentilezas e mantas quadriculadas: aguardar que a companhia se sirva para somente comer, puxar a cadeira, abrir o guarda-chuva, acompanhar até em casa e esperar que entre para se despedir.

Hábitos masculinos. Alguns dirão que são antiquados, machistas; outros, românticos, pueris.

Ao invés de discuti-los, eu me satisfaço em perpetuá-los.

Dentre eles, o que mais valorizo é manter a mulher no lado interno da calçada. Não permito que escape para o meio-fio. Serei antipático quando contestado. Serei grosso para preservar minha educação. Que ela permaneça na banda do céu no jogo da amarelinha. Meus sapatos estão acostumados a desenhar os limites do giz. É uma dança, a regra de uma dança, como levar a parceira ao salão com a mão esquerda e conduzi-la com a direita. Conduzir não é arrastar. É ter firmeza para a resposta.

Não a deixarei perto da rua, vulnerável aos atropelos da vida, à visão elétrica dos carros, ao ataque dos assaltantes. Não que a esconda, cultivo mistérios. Recebo em troca boa parte de sua sombra em meus quadris. 

Claro que ela sabe se defender, mas é uma preferência musical. Minha atitude de ouvinte. Ela estará leve e debruçada nas guitarras das casas. Ainda mais se comentar a beleza de uma arquitetura e alisar os azulejos antigos como se fossem novos.

Posso ouvir com maior nitidez seus passos, a acústica do vestido. Envolver-me com o ritmo da respiração crescendo pelo esforço da caminhada. Afora os prazeres de olhar de lado e ser desafiado de perfil.

O cuidado de cuidar, o tato de servir. Andar certas quadras com a sensação de proteger desarma os homens. Confiantes, confessam inclusive a infância e o que não lembravam.

O homem visita a rua, por isso fica de fora, com seu corpo destinado ao extravio do mundo. A mulher é a própria residência a passeio, a intimidade de um telhado capturada pelos cabelos.

Mulher merece estar no lado de dentro do homem, no forro das árvores, com a paciência de nosso corpo e a escolta da linguagem.

Rente aos portões, às portas, às marquises. Mais perto das vozes dos estabelecimentos e das sonoridades das janelas.

No lado de dentro. Sempre. Qualquer que seja a palavra ou a avenida. Dentro de mim. 


               Fabrício Carpinejar
 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Aspirante a poeta

Tenho saudade de suas pernas
que entrelaçavam as minhas
eternizando uma noite comum.
Tenho saudade das juras de amor que proferias a mim.
Tenho saudade do teu cheiro, 
que invadia minha alma 
e que ainda está em minhas roupas.
E tenho saudade do teu olhar
que me queimavam por dentro
e me acalmavam por fora.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Gay Heterossexual

- Você é um gay heterossexual
- Eu?
- Sim. Um gay que gosta de mulher e só de mulher, essa é a diferença.
- Mas de onde você ta tirando isso? Eu adoro futebol.
- Meu cabeleireiro também adora.
- Eu gosto de lavar carro, sofro com qualquer arranhãozinho ali no meu carro.
- Meu estilista, também.
- Ah, meu Deus. Você não me ama mais.
- Viu como é dramático? Qualquer coisa é uma ópera gay!
- Não sou nada. Não uso piteira pra tragar as palavras.
- Olha aí, humor refinado. Seu humor é gay. Ninguém entenderia essas piadas.
- Não, para, você ta me provocando à toa.
- Não, acho extremamente viril um gay ser heterossexual.
- Ta bom! Me mostra que sou gay!
- Lembra quando você fez um strip na última semana?
- Lembro. E daí? Não gostou?
- Vibrei! Sabemos, mas você arrancou a camisa, a calça, jogava pro lustre, pela janela, mostrava um desinteresse passional furação. E... no instante de retirar as meias, você cria um novelo com as duas como se fosse guardar na gaveta!
- Não me diga que é gay!
- Sim, foi uma parada gay.
- Para de polinizar. Não posso ser gentil, educado, afetuoso e já me rotula.
- Conversa de gay. Não recordo de um marmanjo defendendo a sua ternura.
- Sou vaidoso no amor, e daí?
- Pinta as unhas, corta o cabelo uma vez por semana. Seu guarda-roupa é duas vezes o meu! Adora loja, disposto a debater duas horas se leva uma echarpe ou não.
- Não vejo a vida com maniqueísmo, homo e hétero.
- Quanto tempo você suporta uma mancha no tapete?
- Cinco minutos!
- É! É o tempo pra buscar um desinfetante, né?
- Bom, ta tudo bem! Quer uma prova de que sou inteiramente masculino?
- Inteiramente? Estranho... um gay que emprega muito esse tipo de advérbio.
- Não, não, deixe eu falar.
- Ta, tudo bem. Me diz qual é a prova irrefutável.
- Eu tenho um poncho.
- Ué, todo gay usa poncho.
- Ah, eu vou mandar prum analista de Pagé pra acabar com essa frescura.
- Tudo bem, é um homem. Você é um homem. Um homem gay.
- Poderia arrumar seu brinco?
- Ta aí, falei. Repara em tudo, comenta qualquer pessoa que passa. O jeito que ela se veste, o jeito como ela fala, tomado de uma maldade alegre.
- Ué, falando mal dos outros que eu aprendi a me criticar.
- Nunca tem fim uma discussão de um relacionamento. Emenda um problema no outro, não termina um assunto.
- Acho que você está acostumada com desprezo.
- Ta me ofendendo? Eu puxo os seus cabelos.
- E se encontrar um nó, desembaraça?
- Isso é um detalhe! Observe agora a sua quebradinha de quadril pra afirmar que não é gay.
- Não, não, não. Isso não é suficiente.
- Combina cueca com camiseta. Homem não escolhe a cueca, pega a primeira que aparecer pela frente.
- Não me convenceu isso aí. Isso aí é de suas histórias, não é capricho.
- Limpa a casa com entusiasmo. Vocação Maternal.
- É uma vingança porque canto ABBA na cozinha.
- Não me entenda mal. Acho você um homem perfeito. Mas um super homem do Gil.
- Gilberto Gil? Pretende me desmoronizar?
- É um elogio, porra!
- Parece um homem falando agora.
- Ah, vá se danar!
- Descobri o que quer com essa conversa. Já transou com um gay, acertei?
- Tudo bem, sua paranoia é masculina

 Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lua Nova Demais

  Ganhei o livro que eu tanto queria. "Parem de Falar Mal da Rotina" da Elisa Lucinda, toda empolgada, me deparei com um texto que me chamou a atenção em especial, junto com um poema, cujo me emocionei.
 O poema trata de um caso que vemos no nosso cotidiano, crianças de rua. Nesse caso, meninas de rua. Algo que me comove muito.
 Você já parou pra pensar como vivem essas crianças ou, em especial essas meninas?
Começa por não saber o que é ter estrutura familiar, casa, segurança, carinho. Submetidas ao terror da rua, dormem de olhos abertos por causa do medo da incerteza. Trocando o futuro por um prato de comida. Pensei muito nisso depois que li o poema. Leia. E reflita.




Lua Nova Demais


Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual mestruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pêlos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois mestrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha...”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

 Elisa Lucinda.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aspirante a poeta.

Quando você fica em silêncio
quase leio os seus pensamentos.
E quando olho em seus olhos
Sei bem o que está sentindo.
Será que é por isso que evita me olhar?
Não adianta.
Quando sorri para tentar me enganar
ou para tentar se enganar
Vejo na sua transparência perante a mim
Que não está sendo fácil.

Ah, amor,
Por que és tão cruel?