sábado, 26 de março de 2011

Não existe impedimentos para o amor.

 O amar transcede as possibilidades.
 Mesmo sem poder, continuei.
 Quis viver te amando, destruindo barreiras, indo além dos limites que a vida me impôs.
 Ao amor não cabe imposição.
 O amar é cego.
 Não vemos cara. 
 A beleza não importa mais.
 O amor não tem espaço para beleza sem ser a dos olhos e do coração.
 O amor transcede o ser. Quando amamos, amamos a alma. Não há calma que acalme, brigamos por amar demais. Para amar mais.
 Depois de tamto amar-te e ver que você não estava pronto para ter minha vida com você decidi amar a única pessoa que realmente merece o meu amor, merece minha vida, merece toda a minha entrega, está sempre disposta a me fazer feliz, a me satisfazer e a me ver bem. Afinal, temos que ser racionais não é? 
 Vou amar quem me ama.
 Hoje amo a mim.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Vivendo pra você.

 A cada suspiro que dou, morro um pouco.
 Sinto minha vida se indo ao respirar.
 Quando você disse que me amava, parecia que me pedia para ficar.
 Eu não podia.
 Precisava me ver longe de você para poder crescer, soltar minhas asas, voar, viver minha vida e poder voltar pra ti.

 A cada segundo meu fim se aproxima. Sinto você comigo, te procuro e percebo que você nunca esteve longe. O amor sempre aproximou nossos espíritos, apesar dos empecilhos que a vida colocou entre nós. 
 Queria sentir sua mão na minha agora.
 O medo da morte é bobagem. Estamos morrendo desde a hora em que nascemos e gritamos, para sinalizar nossa chegada.
 A cada dia que passa, tenho mais certeza de qe quero que minha vida seja sua.
 Eu tive essa certeza quando vi que, depois daquela noite, só você me faria feliz.
 Apesar do medo que sinto, estou pronta.
 Sim. Estou pronta.
 Meu amor, eu estou pronta para morrer para o mundo. E nascer nos seus olhos.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Aviso a Lua que Menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
Cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
Às vezes parece erva, parece hera
Cuidado com essa gente que gera
Essa gente que se metamorfoseia
Metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
Mas é outro lugar, aí é que está:
Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
Que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
Transforma fato em elemento
A tudo refoga, ferve, frita
Ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
É que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
É que tô falando na "vera"
Conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
Delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
Ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
Já se alcança a "cidade secreta"
A atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
Cai na condição de ser displicente
Diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
Que a mulher extrai filosofando
Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso
Julgando a arte do almoço: eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
Então esquece de morder devagar
Esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
Chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
Vaca é sua mãe. de leite.
Vaca e galinha...
Ora, não ofende. enaltece, elogia:
Comparando rainha com rainha
Óvulo, ovo e leite
Pensando que está agredindo
Que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


       Elisa Lucinda

sexta-feira, 11 de março de 2011

Isola

e' il tuo ritratto sullo sfondo
che s'illumina
ed e' la voce del tuo mondo
che mi libera


      Chiara Civello

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Lado Preferido da Calçada

Como filho do interior, conservo hábitos. O respeito pelos rituais herdados de meu pai, de meu avô, de meu bisavô. Assim como não perco o interesse ao espiar o entardecer e conferir como será o último gole de rio pelo sol alaranjado.

O armário afetivo não dispensa gentilezas e mantas quadriculadas: aguardar que a companhia se sirva para somente comer, puxar a cadeira, abrir o guarda-chuva, acompanhar até em casa e esperar que entre para se despedir.

Hábitos masculinos. Alguns dirão que são antiquados, machistas; outros, românticos, pueris.

Ao invés de discuti-los, eu me satisfaço em perpetuá-los.

Dentre eles, o que mais valorizo é manter a mulher no lado interno da calçada. Não permito que escape para o meio-fio. Serei antipático quando contestado. Serei grosso para preservar minha educação. Que ela permaneça na banda do céu no jogo da amarelinha. Meus sapatos estão acostumados a desenhar os limites do giz. É uma dança, a regra de uma dança, como levar a parceira ao salão com a mão esquerda e conduzi-la com a direita. Conduzir não é arrastar. É ter firmeza para a resposta.

Não a deixarei perto da rua, vulnerável aos atropelos da vida, à visão elétrica dos carros, ao ataque dos assaltantes. Não que a esconda, cultivo mistérios. Recebo em troca boa parte de sua sombra em meus quadris. 

Claro que ela sabe se defender, mas é uma preferência musical. Minha atitude de ouvinte. Ela estará leve e debruçada nas guitarras das casas. Ainda mais se comentar a beleza de uma arquitetura e alisar os azulejos antigos como se fossem novos.

Posso ouvir com maior nitidez seus passos, a acústica do vestido. Envolver-me com o ritmo da respiração crescendo pelo esforço da caminhada. Afora os prazeres de olhar de lado e ser desafiado de perfil.

O cuidado de cuidar, o tato de servir. Andar certas quadras com a sensação de proteger desarma os homens. Confiantes, confessam inclusive a infância e o que não lembravam.

O homem visita a rua, por isso fica de fora, com seu corpo destinado ao extravio do mundo. A mulher é a própria residência a passeio, a intimidade de um telhado capturada pelos cabelos.

Mulher merece estar no lado de dentro do homem, no forro das árvores, com a paciência de nosso corpo e a escolta da linguagem.

Rente aos portões, às portas, às marquises. Mais perto das vozes dos estabelecimentos e das sonoridades das janelas.

No lado de dentro. Sempre. Qualquer que seja a palavra ou a avenida. Dentro de mim. 


               Fabrício Carpinejar
 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Aspirante a poeta

Tenho saudade de suas pernas
que entrelaçavam as minhas
eternizando uma noite comum.
Tenho saudade das juras de amor que proferias a mim.
Tenho saudade do teu cheiro, 
que invadia minha alma 
e que ainda está em minhas roupas.
E tenho saudade do teu olhar
que me queimavam por dentro
e me acalmavam por fora.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Gay Heterossexual

- Você é um gay heterossexual
- Eu?
- Sim. Um gay que gosta de mulher e só de mulher, essa é a diferença.
- Mas de onde você ta tirando isso? Eu adoro futebol.
- Meu cabeleireiro também adora.
- Eu gosto de lavar carro, sofro com qualquer arranhãozinho ali no meu carro.
- Meu estilista, também.
- Ah, meu Deus. Você não me ama mais.
- Viu como é dramático? Qualquer coisa é uma ópera gay!
- Não sou nada. Não uso piteira pra tragar as palavras.
- Olha aí, humor refinado. Seu humor é gay. Ninguém entenderia essas piadas.
- Não, para, você ta me provocando à toa.
- Não, acho extremamente viril um gay ser heterossexual.
- Ta bom! Me mostra que sou gay!
- Lembra quando você fez um strip na última semana?
- Lembro. E daí? Não gostou?
- Vibrei! Sabemos, mas você arrancou a camisa, a calça, jogava pro lustre, pela janela, mostrava um desinteresse passional furação. E... no instante de retirar as meias, você cria um novelo com as duas como se fosse guardar na gaveta!
- Não me diga que é gay!
- Sim, foi uma parada gay.
- Para de polinizar. Não posso ser gentil, educado, afetuoso e já me rotula.
- Conversa de gay. Não recordo de um marmanjo defendendo a sua ternura.
- Sou vaidoso no amor, e daí?
- Pinta as unhas, corta o cabelo uma vez por semana. Seu guarda-roupa é duas vezes o meu! Adora loja, disposto a debater duas horas se leva uma echarpe ou não.
- Não vejo a vida com maniqueísmo, homo e hétero.
- Quanto tempo você suporta uma mancha no tapete?
- Cinco minutos!
- É! É o tempo pra buscar um desinfetante, né?
- Bom, ta tudo bem! Quer uma prova de que sou inteiramente masculino?
- Inteiramente? Estranho... um gay que emprega muito esse tipo de advérbio.
- Não, não, deixe eu falar.
- Ta, tudo bem. Me diz qual é a prova irrefutável.
- Eu tenho um poncho.
- Ué, todo gay usa poncho.
- Ah, eu vou mandar prum analista de Pagé pra acabar com essa frescura.
- Tudo bem, é um homem. Você é um homem. Um homem gay.
- Poderia arrumar seu brinco?
- Ta aí, falei. Repara em tudo, comenta qualquer pessoa que passa. O jeito que ela se veste, o jeito como ela fala, tomado de uma maldade alegre.
- Ué, falando mal dos outros que eu aprendi a me criticar.
- Nunca tem fim uma discussão de um relacionamento. Emenda um problema no outro, não termina um assunto.
- Acho que você está acostumada com desprezo.
- Ta me ofendendo? Eu puxo os seus cabelos.
- E se encontrar um nó, desembaraça?
- Isso é um detalhe! Observe agora a sua quebradinha de quadril pra afirmar que não é gay.
- Não, não, não. Isso não é suficiente.
- Combina cueca com camiseta. Homem não escolhe a cueca, pega a primeira que aparecer pela frente.
- Não me convenceu isso aí. Isso aí é de suas histórias, não é capricho.
- Limpa a casa com entusiasmo. Vocação Maternal.
- É uma vingança porque canto ABBA na cozinha.
- Não me entenda mal. Acho você um homem perfeito. Mas um super homem do Gil.
- Gilberto Gil? Pretende me desmoronizar?
- É um elogio, porra!
- Parece um homem falando agora.
- Ah, vá se danar!
- Descobri o que quer com essa conversa. Já transou com um gay, acertei?
- Tudo bem, sua paranoia é masculina

 Fabrício Carpinejar