Cheguei em casa, noite quente. Minha cabeça doía como de costume. No calor minha cabeça dói. Talvez tenha excedido no vinho.
Tomei banho, lavei os cabelos, deito descoberta e penso em o quanto estou trabalhando demais e vivendo de menos. Não vi Mariana essa semana e já é quinta feira. Amanhã entregarei a ela nossas alianças, espero que ela se mude pra cá em breve.
Dormi e não acordei.
Me vejo agora fora do corpo, externa.
Engraçado morrer desse jeito, não era assim que eu esperava.
Mas, então morri, é isso, assim, do nada?
A morte precisa de aviso prévio!
E as contas que deixei pra pagar amanhã? As alianças, minha e da Mariana, que ficou na gaveta?
Pois é, eu que sempre brinquei de procrastinar a vida inteira agora me coloco a reclamar.
Não tive tempo de reler Capitães de Areia, não ouvi Lenine, não dancei I'm Survive, não voltei a Nova Iorque.
Espero que encontre as alianças, meu amor. guarde-as com você.
E minha mãe, que me ligou ontem e acabei a tratando mal, estava trabalhando. Não te abracei pela ultima vez...
Queria, na verdade, um diagnóstico lento, ter tempo pra beijar minha mãe, abraçar meu pai e pedir desculpas a ele, afinal, não fui a filha médica e sim a rebelde desenhista.
É, a morte não me mandou lembranças, me beijou rápido com sua boca fria, ríspida.
O que me consola foi ver que a vida não acaba, ainda olho por quem amei, longe e tão perto, porém, sinto não poder mais tocá-los.
Ainda sinto o gosto do vinho, mas minha cabeça já não dói mais.
Agora, me resta apenas acostumar viver longe dos meus lápis, da minha louça sem lavar, sem acordar minha mulher pela manhã, sem falar com a minha mãe a noite.
Me resta aprender a viver fora do corpo, dentro da alma.
Sempre estupendo. Era disso que eu precisava. Obrigada, Maria.
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