O que está fazendo?
Eu deixo de viver para me concentrar melhor naquilo que está fazendo. Não pretendo me distrair de pensar o que está fazendo sem mim. Minha ocupação é imaginar se está lendo neste dia de chuva, com as pernas para cima no sofá.
Qual será o livro? Estará gostando, com receio de que termine, ou detestando, já questionando se vale a pena continuá-lo. Se bem que em dia de chuva nenhum livro termina, todos os livros começam.
Qual é a cor de sua solidão? Creme, igual às paredes de sua infância? Você come verdura por obrigação? Ou se acostumou a esquecer o gosto pelo tempero?
Não atendo o telefone, não vou me dispersar em adivinhar o que está fazendo. Qual roupa que escolheu ou apenas recolheu uma coberta sobre os ombros, como uma afogada ainda traumatizada pelos últimos pensamentos? Será que você está ansiosa ou cansada? Invejo a lenta aproximação da claridade em seu pescoço, fazendo seu perfume subir à superfície com mais fragor.
Já foi ao banheiro? Você me ensinou a arte de aguardá-la na porta de um banheiro. Eu aprendi a esperá-la. O homem aguardando sua mulher no corredor é sempre um tarado. Ao fingir que não é tarado, termina sendo mais suspeito.
Na verdade, sou tarado por sinais. Um gato no muro, um carro com alto-falante vendendo frutas, pássaros ofendendo os vizinhos são carteiros de seus pressentimentos.
Tanto que estou procurando definir se está pensando em mim com a mesma freqüência que vai à cozinha para deixar uma xícara suja.
Seu pé está gelado, você observa o par de meias e vê que uma unha está arranhando o tecido. Pega uma lixa, irritada que é domingo e o salão está fechado. Uma unha fora do lugar estraga a harmonia. Desiste, e tenta procurar o par de brincos verdes. Brincos ajudam a escutar melhor. É uma aldrava de janela. Você acha graça do que disse, repete: "brinco é uma aldrava de janela". Olha ao lado, não estou.
Quantas frases eu guardei para um texto só porque você riu? Eu achei que eram importantes porque você riu. Você ri e eu acho importante, eu me acho importante porque me assiste.
Nesse momento, eu adivinhando o que está fazendo coincide com você imaginando o que estou fazendo. É quase como estar junto.
Nossas ausências são tão improváveis que se negam ao mesmo tempo. Seu sofrimento é educado, não vulgariza a dor a ponto de expulsá-la. A dor é mais um cachorro pela casa.
Você mexe no computador, lê alguns e-mails antigos que mandei, caça algo que não revelei, você me corrige, me legenda e não chega a nenhuma conclusão. Eu sou seu silêncio submisso. Um silêncio que não a desespera quando estou longe. Em sua companhia, meu silêncio a atormenta. Eu tenho que estar falando e me explicando para que não me perca. Se não falo, eu a vejo me procurando enervada. "Onde está com a cabeça" "Onde está com a cabeça?" Você ama minha falta de palavras, mas não consegue sustentá-la.
Confia que meu silêncio a trai. Mas meu silêncio é quando sou mais fiel. Quando não brigo.
O que anda fazendo que não sei? Será que está alegre e despreocupada, nem aí para qualquer distância? Duvido, sua boca é muito vaidosa para não me mastigar.
Você me assusta com sua ternura contida. Ela pode explodir com uma canção de sua adolescência, uma conversa com a mãe, uma conta atrasada. Pode explodir sem motivo.
Você me assusta porque encontra o escândalo unicamente no amor. Fora dele, é discreta e reservada. Fora dele, não a conheço.
Vive me ameaçando, pressionando, provocando a nadar somente com os pés. Sua alegria é um surto. Sem licença e vergonha.
Pede para que espalhe a porra pelo seu corpo. Pelos seios. Pela cintura.
Você me engole com raiva.
Eu sou seu, só seu. Mesmo quando não estou ao seu lado.
Fabrício Carpinejar
domingo, 19 de agosto de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
Voei.
Olhava aquela folha em branco, tentava cuspir alguma palavra, mas nada saía. Era claro que ali estavam escondidas poesias arrancadas, se via pelas marcas fundas no papel.
Trazia os olhos rasos de lágrimas, cheio de mágoas, com a boca tremula e comprimida, reprimindo um choro que ansiava sair, queria transbordar, era uma represa com as comportas fechadas.
Misturava as lembranças do doce início do amor com as lembranças da partida inexplicável.
Seus pensamentos flertavam com a loucura, nada mais condizia, a desesperava observar seus vinte e poucos anos e concluir que tinha mais futuro que passado. Não poderia aguentar isso.
Tentava, em vão, estabelecer o momento em que o amor acabou, em que a música não tocava mais, em que o ponto final foi colocado.
Talvez o ponto final não tenha sido colocado.
Seu corpo queimava ao lembrar da ultima noite juntos na praia, no calor desumano amenizado pela brisa do mar e do sabor adocicado do vinho barato.
Respirou fundo o ar preso daquele quarto como uma tentativa de subir a superfície, se livrar das lembranças, porém a noite parecia ainda mais quente e sua tentativa foi inutilizada.
Saiu daquele jeito mesmo em direção a rua, cabelos desgrenhados, olhos molhados. Correu algumas ruas sem destino algum e, por instinto, parou em um viaduto qualquer, gritou sobre ele entre as últimas lágrimas o grito que prendeu durante os últimos meses, desde a morte dele.
Deixou o grito ecoar pela avenida, sorveu as ultimas lágrimas que percorreram o caminho já conhecido em seu rosto e pulou, lenta numa eternidade.
Voou doce como um anjo.
Para matar aquele amor.
Para matar tudo que havia dentro dela.
Pulou pra nunca mais voltar.
Voou para o recomeço.
Trazia os olhos rasos de lágrimas, cheio de mágoas, com a boca tremula e comprimida, reprimindo um choro que ansiava sair, queria transbordar, era uma represa com as comportas fechadas.
Misturava as lembranças do doce início do amor com as lembranças da partida inexplicável.
Seus pensamentos flertavam com a loucura, nada mais condizia, a desesperava observar seus vinte e poucos anos e concluir que tinha mais futuro que passado. Não poderia aguentar isso.
Tentava, em vão, estabelecer o momento em que o amor acabou, em que a música não tocava mais, em que o ponto final foi colocado.
Talvez o ponto final não tenha sido colocado.
Seu corpo queimava ao lembrar da ultima noite juntos na praia, no calor desumano amenizado pela brisa do mar e do sabor adocicado do vinho barato.
Respirou fundo o ar preso daquele quarto como uma tentativa de subir a superfície, se livrar das lembranças, porém a noite parecia ainda mais quente e sua tentativa foi inutilizada.
Saiu daquele jeito mesmo em direção a rua, cabelos desgrenhados, olhos molhados. Correu algumas ruas sem destino algum e, por instinto, parou em um viaduto qualquer, gritou sobre ele entre as últimas lágrimas o grito que prendeu durante os últimos meses, desde a morte dele.
Deixou o grito ecoar pela avenida, sorveu as ultimas lágrimas que percorreram o caminho já conhecido em seu rosto e pulou, lenta numa eternidade.
Voou doce como um anjo.
Para matar aquele amor.
Para matar tudo que havia dentro dela.
Pulou pra nunca mais voltar.
Voou para o recomeço.
domingo, 22 de julho de 2012
Boas novas.
Porto Alegre, 20 de julho de 2012
Meu amor,
Te escrevo nesse julho invernal enquanto padeço de frio e vejo a chuva cair.
Aqui, nessa escura cidade, sinto falta do seu sorriso solar.
Sinto falta de quando corria pra me abraçar.
Da sua alegria infantil, quase inocente.
Ah, que saudade do sol de fevereiro, similar a claridade de seus olhos.
Saudade das noites que ganhei afagando teus cabelos, me afogando em sua boca.
Trago boas novas, em meados de agosto recomeçarei meu sonho junto a você.
Espero que ainda me espere, assim como prometeu que faria.
Me espere com um beijo de boas vindas, boca fria, língua quente.
Aqui no sul nada me aquece, nem as breves manhãs ensolaradas de um verão quase cinza.
Quero voltar pra São Paulo que nasci, cidade que de santo não tem nada, assim como essa triste Porto Alegre.
Ah, maldita ironia!
Pois bem, meu bem, te asseguro, meu amor por ti permanece intacto, guardado dentro de um livro, assim como a rosa, hoje seca, que você me deu antes que eu partisse.
Meu amor, o amor nunca seca, basta uma lágrima que se acabe em um sorriso pra começar tudo de novo.
Meu amor,
Te escrevo nesse julho invernal enquanto padeço de frio e vejo a chuva cair.
Aqui, nessa escura cidade, sinto falta do seu sorriso solar.
Sinto falta de quando corria pra me abraçar.
Da sua alegria infantil, quase inocente.
Ah, que saudade do sol de fevereiro, similar a claridade de seus olhos.
Saudade das noites que ganhei afagando teus cabelos, me afogando em sua boca.
Trago boas novas, em meados de agosto recomeçarei meu sonho junto a você.
Espero que ainda me espere, assim como prometeu que faria.
Me espere com um beijo de boas vindas, boca fria, língua quente.
Aqui no sul nada me aquece, nem as breves manhãs ensolaradas de um verão quase cinza.
Quero voltar pra São Paulo que nasci, cidade que de santo não tem nada, assim como essa triste Porto Alegre.
Ah, maldita ironia!
Pois bem, meu bem, te asseguro, meu amor por ti permanece intacto, guardado dentro de um livro, assim como a rosa, hoje seca, que você me deu antes que eu partisse.
Meu amor, o amor nunca seca, basta uma lágrima que se acabe em um sorriso pra começar tudo de novo.
domingo, 8 de julho de 2012
Futuro amor.
Ei amor, mais uma vez venho escancarar essa vontade de amar que tenho para você.
Sei que nem tens uma face, sei que em ti nem bate um coração, sei que não tens o perfume que eu aprenderia a gostar e passaria a ser meu preferido.
Será que alguém é capaz de entender meu anseio de amar?
Preciso tanto te dar uma face, te fazer real, dar perfume aos teus cabelos, brilho aos teus olhos, textura a tua boca.
Necessito apenas de um abraço que me faça sentir o compasso do seu coração (coração esse que passarás a ter), quero o sentir bater junto ao meu, sentir sua respiração junto a minha.
Peço apenas que exista e me tire desse vácuo em que me afundo pela presença constante de tua ausência.
Cause-me a calma, a tua falta me causa o caos.
Diga-me seu nome, não precisaremos mais do que isso para o começarmos.
Me ame!
Não precisaremos mais do que isso para que sigamos juntas até o fim, até a loucura.
Até o riso descontrolado.
Até o autocontrole.
Até o recomeço.
Até um novo amor.
sábado, 23 de junho de 2012
Leva nos Olhos.
E aquele amor, tão evidente nos olhos dos dois me fez, mais uma vez, refletir aquele momento.
Me parecia ser um amor doce, contido, sem pressa, sem medo.
E era.
As mãos se uniam e naquele momento de dor, pude ver aquilo que Pedro sempre me disse.
Eu e Pedro trabalhamos juntos, em uma agência publicitária, em que ele é diretor.
Mais que meu chefe, ele é meu melhor amigo.
Naquele doze de setembro morreu pai de Maurício, o amor de meu amigo.
Maurício tinha o pai como seu melhor amigo, afinal ele lhe dedicara amor e compreensão durante toda a sua vida, tentando suprir (em vão) a falta da mãe.
Naquele momento em que via Maurício sendo abraçado e amparado por Pedro, pude notar o que realmente é o amor. E pude notar que nunca amei.
Eu, com 28 anos, me envolvi em vários relacionamentos, porém todos vazios do amor que habitava os olhos dos meus amigos, mesmo imersos em lágrimas e tristeza, sempre amor.
Creio que quando o amor chega, ele toma conta, todo e qualquer sentimento se transforma, é sempre amor, sai pelos poros, cabelos, sorrisos...
E invariavelmente sai pelos olhos.
Tenho certeza que quando olhar pra alguém com o mesmo sentimento que meu amigo olha para o seu parceiro de vida, de jornada, de existência, poderei concluir que enfim aprendi a amar.
Me parecia ser um amor doce, contido, sem pressa, sem medo.
E era.
As mãos se uniam e naquele momento de dor, pude ver aquilo que Pedro sempre me disse.
Eu e Pedro trabalhamos juntos, em uma agência publicitária, em que ele é diretor.
Mais que meu chefe, ele é meu melhor amigo.
Naquele doze de setembro morreu pai de Maurício, o amor de meu amigo.
Maurício tinha o pai como seu melhor amigo, afinal ele lhe dedicara amor e compreensão durante toda a sua vida, tentando suprir (em vão) a falta da mãe.
Naquele momento em que via Maurício sendo abraçado e amparado por Pedro, pude notar o que realmente é o amor. E pude notar que nunca amei.
Eu, com 28 anos, me envolvi em vários relacionamentos, porém todos vazios do amor que habitava os olhos dos meus amigos, mesmo imersos em lágrimas e tristeza, sempre amor.
Creio que quando o amor chega, ele toma conta, todo e qualquer sentimento se transforma, é sempre amor, sai pelos poros, cabelos, sorrisos...
E invariavelmente sai pelos olhos.
Tenho certeza que quando olhar pra alguém com o mesmo sentimento que meu amigo olha para o seu parceiro de vida, de jornada, de existência, poderei concluir que enfim aprendi a amar.
domingo, 10 de junho de 2012
Pólvora.
Mais uma vez me recordo docemente de você.
Uma frase. Só uma frase. Foi o necessário para me embargar a voz. Creio que vou lembrar pra sempre do nosso amor. O amor que nunca existiu pra você.
Nos embalos de Chico Buarque li o seguinte ‘’ Quando amamos, o mundo pode estar contra nós, que inventamos um jeito de ficar juntos.’’
Lembra, meu ex eterno amor, o tanto que arrumei pretexto pra te amar? A cada abraço que me dava eu o transformava em ignição pra te amar cada dia mais.
Cada dia melhor.
Pra mim todo dia era poesia, todo dia era música, todo dia era você.
Lembra de tudo o que te prometi?
Esqueça. Prometo cumprir apenas uma. Nunca te deixarei sozinha.
E nunca se esqueça, em mim, a casa é sempre sua.
domingo, 27 de maio de 2012
Amor preciso.
E o maior fato da vida é que todo mundo quer ser amado.
Na verdade, creio que amor transcende o querer.
Ser amado é mesmo uma necessidade.
Até onde posso ir por um pouco de afeto? Acho que não tenho limites.
Hoje acordei com aquela vontade de chorar enroscada na garganta.
Acordei com falta de beijo.
Passei a noite pensando se vale a pena fingir que somos amados ou se compensa mais a solidão do que uma mentira.
Todo mundo quer ser amado, não tem discussão.
E saibam, todas aquelas vezes que disse que não precisava de amor, que eu viveria sem carinho, foi a maior mentira que já professei.
Dizia isso pra brincar de aço, pra fingir que tenho coração de lata, pra tentar aprender a não sentir.
E parei no mesmo lugar.
Com o mesmo vazio no peito, que chega a fazer eco.
Dizia isso por que ninguém nunca ouviu meus soluços compulsivos no meio da madrugada.
Meus soluços de solidão.
Todo mundo necessita ser amado. E não é de amor de mãe que eu falo não, amor fraternal até me sobra.
Ou melhor, amor nunca sobra.
Falo desse amor de fantasia, amor de carne, osso, sentimento.
Necessito de um amor que seja um sopro de vida, um amor de aliança, de música.
Necessito de um amor que me molhe feito a chuva, um amor de lágrimas, de poesia.
Um amor que mude minha alma de casa.
Um amor, na sua simples complexidade.
Não fingirei mais que tenho coração de lata, tenho medo, vai que as lágrimas o molhe e ele enferruje?
Na verdade, creio que amor transcende o querer.
Ser amado é mesmo uma necessidade.
Até onde posso ir por um pouco de afeto? Acho que não tenho limites.
Hoje acordei com aquela vontade de chorar enroscada na garganta.
Acordei com falta de beijo.
Passei a noite pensando se vale a pena fingir que somos amados ou se compensa mais a solidão do que uma mentira.
Todo mundo quer ser amado, não tem discussão.
E saibam, todas aquelas vezes que disse que não precisava de amor, que eu viveria sem carinho, foi a maior mentira que já professei.
Dizia isso pra brincar de aço, pra fingir que tenho coração de lata, pra tentar aprender a não sentir.
E parei no mesmo lugar.
Com o mesmo vazio no peito, que chega a fazer eco.
Dizia isso por que ninguém nunca ouviu meus soluços compulsivos no meio da madrugada.
Meus soluços de solidão.
Todo mundo necessita ser amado. E não é de amor de mãe que eu falo não, amor fraternal até me sobra.
Ou melhor, amor nunca sobra.
Falo desse amor de fantasia, amor de carne, osso, sentimento.
Necessito de um amor que seja um sopro de vida, um amor de aliança, de música.
Necessito de um amor que me molhe feito a chuva, um amor de lágrimas, de poesia.
Um amor que mude minha alma de casa.
Um amor, na sua simples complexidade.
Não fingirei mais que tenho coração de lata, tenho medo, vai que as lágrimas o molhe e ele enferruje?
Assinar:
Postagens (Atom)
